Desde o seu surgimento na Terra, no ano de 1857, o Espiritismo
enfrentou tenaz resistência por parte da religião majoritária do Brasil.
Entretanto, na década de 1930, essa pressão acentuou-se de maneira inusitada,
fazendo-se sentir em toda a sua intensidade.
Na cidade de Pinhal, o clima não era diferente. Entretanto,
como Deus situa em cada cidade um Espírito que desenvolve tarefas pioneiras e
santificantes, aquele núcleo populacional do Estado de São Paulo, não poderia
constituir exceção, por isso ali reencarnou o Espírito missionário de
Adélia Rueff, mais conhecida por "Tia Adélia", que teve a
oportunidade ímpar de desenvolver santificante trabalho em favor do
esclarecimento dos seus semelhantes, alicerçada na recomendação de Jesus do
"Amai-vos uns aos outros".
A fim de propiciar aos nossos visitantes uma apagada súmula
biográfica dessa grande vida, passamos a transcrever um substancioso trabalho
elaborado pelo confrade João Batista Laurito, ex-presidente da Federação
Espírita do Estado de São Paulo, que teve a oportunidade feliz de com ela
conviver, locupletando-se com os frutos sazonados que ela tão bem sabia doar
aos que usufruíam de sua benfazeja orientação espiritual.
Foi exatamente em 1936 que tive os meus olhos abertos para
as claridades fulgurantes da Doutrina Consoladora. Embora nascido em berço
espírita, foi somente nessa ano que, indo residir em Pinhal, a fim de estudar
na "Escola Agrícola", conheci o "Centro Espírita Estrela da
Caridade" brilhante fanel de luzes na Região Mojiana, centro de
irradiação de caridade e amor a todos os que tinham a oportunidade de
freqüentá-lo.
Essa Casa foi fundada em 11 de Janeiro de 1911 e, desde o dia de
sua fundação até 1950, ininterruptamente, foi essa célula de fraternidade,
sábia e amorosamente presidida por sua fundadora ADÉLIA RUEFF (Tia Adélia),
assim chamada, porque solteira, abrigou em seu lar enorme contingente de
sobrinhos de outras cidades, que na idade própria buscavam Pinhal, para aculturamento
escolar, fato que durou muitos anos. E esses sobrinhos eram
tantos, que generalizaram entre outras pessoas, a alcunha de Tia Adélia".
O Dr. Francisco Silviano de Almeida Brandão, por ocasião de
sua colação de grau como médico, houvera feito uma promessa no final do
século XIX que se tudo transcorresse bem por ocasião de sua formatura, abriria
um Centro Espírita, pois já nessa época professava a crença
reencarnacionista. Mas como as coisas na ocasião eram, além de difíceis, o
espírito popular muito antagônico, foi postergando a idéia até desencarnar.
No mundo espiritual, viu a necessidade do cumprimento da promessa, e surgindo a
primeira oportunidade, comunicou-se com Tia Adélia, pedindo-lhe que cumprisse
por ela a promessa. Assim nasceu o "Centro Espírita Estrela da
Caridade".
Durante cinco anos, moramos com ela. E às terças e sábados,
às 19:30 horas, lá estávamos no "Estrela da Caridade", e a sua voz,
firme, inflexível, embora mansa e doce, ainda ecoa em nossos ouvidos, quando
iniciava a sessão declamando: "Deus nosso Pai, que sois todo poder e
bondade..." e ao encerrar: "Sublime estrela, farol das imortais
falanges..."
Nasceu no dia 5 de Junho de 1868, ali mesmo em Pinhal,
predestinada a somente servir, não casou. Durante toda a sua fértil
existência, amou e deu tanto de si aos outros, que formou em seu derredor uma
auréola de inenarrável admiração. Médium de exuberantes proporções,
bastava a imposição de suas compassivas mãos, para aliviar instantaneamente
as pessoas, que a procuravam com tanta avidez, sem lhe permitir sossego ou
descanso.
Certa feita ela viajou. E nós, que aos domingos aproveitávamos
para dormir até bem mais tarde, sem nenhuma alegria ou boa vontade, atendemos
17 pessoas que a procuraram para tomar passes, das 8 ás 12 horas. Uma ocasião,
um confrade de Jacutinga - Minas Gerais, viajou, a pé, 26 quilômetros para
presenteá-la com um saquinho de feijão verde, numa atitude de comovedora
gratidão.
A mesa diretora dos trabalhos era formada. Na cabeceira
principal sentava Tia Adélia, sob uma iluminada Estrela de lâmpadas coloridas,
símbolo do Centro. Na outra cabeceira, o Vice-presidente, Zé Café. As
laterais para os médiuns, Dona Ordalha, Tereza, Idalina, Dona Eugênia, e a
extraordinária Dona Adélia Neto, que quando recebia o Guia Espiritual do
Centro "Irmão Silviano", se colocava de pé, abria os olhos, e de uma
criatura tímida e simples, embora bela, se transformava num tribuno imponente e
erudito. Pudera, médium inconsciente dando passividade ao Espírito Dr. Francisco
Silviano de Almeida Brandão, médico, Presidente do Estado de Minas
Gerais. Na porta de entrada, controlando com vigilância e severidade a
admissão dos freqüentadores, a Mariana e a Rosa Domiciano, zeladoras do grupo.
Viajando em charretes, excepcionalmente em automóveis e quase
sempre a pé, lá ia Tia Adélia, à periferia Pinhalense e aos sítios
vizinhos, cumprindo a predestinação de sua encarnação, como lídima
missionária do Cristo: atendendo aos aflitos, curando os obsediados, levantando
os caídos, vestindo as viúvas, alimentando as crianças e amparando os velhos.
Que criatura extraordinária! doce, mansa, boa. Jamais a vimos
encolerizada, jamais a vimos levantar a voz. À medida que envelhecia, fruto de
dois acidentes graves, se curvava, se encarquilhava, tornando-se menor. Fatos
que nunca afizeram perder a paciência. Olhos vivos, argutos, mente clara,
pensamento limpo, conselheira oficial de quase toda a população pinhalense.
Fato que lhe proporcionou tributo de grande admiração, respeito e afeição
por seus contemporâneos.
Descrever fatos do desenvolvimento espírita de "Tia
Adélia" no campo da benemerência, seria tarefa que preencheria um enorme livro.
Médium de determinação na crença do trabalho doutrinário,
deixava sempre para segundo plano a necessidade de repouso físico, aproveitando
todo o tempo disponível no atendimento dos mais necessitados do caminho.
Por ocasião das festividades comemorativas no "Estrela da
Caridade", Tia Adélia, com muito carinho e inteligência, preparava seus
discursos e em pé, inflamada, ereta, impressionava os presentes ao transmitir
seus inequívocos conhecimentos a respeito da Doutrina. Empolgava tanto as suas
palestras, que aos menos avisados, desconhecedores das virtudes mediúnicas,
não conseguiam reconhecê-la na oradora.
Os freqüentadores do "Centro Espírita Estrela da
Caridade", chegavam a venerar a tal ponto o Guia Espiritual do Grupo,
Irmão Silviano, que narraremos um acontecimento inusitado para o conhecimento
dos leitores:
Em determinada ocasião, brincávamos com um grupo de crianças,
quando uma garota nos contou algo muito sério. Exigimos dela que jurasse se
aquilo era verdade. E ela, jurou por Deus que tudo quanto dissera representava a
expressão da verdade. Não aceitamos o juramento e retrucamos: jurar por Deus
não interessa; você jura pelo "Irmão Silviano"? - Era exigir demais
dela, que não teve coragem de ratificar o juramento, pois para jurar em nome do
"Irmão Silviano", só se forre inabalável verdade.
A residência de Tia Adélia era mais freqüentada que o Centro
Espírita. Era gente que entrava, era gente que saía, uns tomando passes,
outros recebendo conselhos e orientações. Aos domingos verdadeiras filas se
formavam, alguém querendo ser grato empunhava uma certa de laranjas, um feixe
de verduras; outro, uma braçada de flores, pacotes de cereais, frangos, ovos,
lenha rachada, frutas, etc... Guardávamos tudo. Na segunda feira, iniciávamos
a caminhada inversa dos presentes. Eram necessitados de toda sorte que iam
visitá-la, e após o passe reparador, a palavra conselheira e amiga, e um agradozinho
representado por ovos, frutas, legumes, flores. Tudo que vinha no
domingo saía na segunda feira, numa vivência "Dai de graça o que de
graça receberdes".